"A doença é uma desarmonia, seja ela desarmonia física ou desarmonia mental
- uma atua sobre a outra. O que causa desarmonia? A falta de tom* e de ritmo.
Como isso pode ser interpretado em terminologia física? Prana, ou vida,
ou energia, é o tom; a circulação, a regularidade, é o ritmo - regularidade nas
pulsações da cabeça, do pulso e na circulação do sangue ao longo das veias. Em
terminologia física, a carência de circulação significa congestão; e a carência
de prana (de vida, ou de energia) significa fraqueza. Essas duas
condições atraem a doença e são a causa da doença. Em terminologia mental, o
ritmo é a ação da mente - quer seja a mente ativa em pensamentos harmoniosos ou
em pensamentos desarmoniosos, quer seja ela uma mente forte, firme e estável, ou
uma mente fraca.
Se a pessoa prossegue tendo pensamentos harmoniosos, isto se assemelha
exatamente às batidas regulares do pulso e à circulação adequada do sangue; se a
harmonia do pensamento é quebrada, a mente fica congestionada. Então, a pessoa
perde a memória; surge a depressão como consequência, e o que a pessoa vê nada
mais é que escuridão. Dúvida, suspeita, desconfiança e todo tipo de aflição e de
desespero ocorrem quando a mente é congestionada dessa maneira. O prana
da mente é mantido quando esta pode ser estabilizada em pensamentos de
harmonia; então, a mente pode equilibrar seus pensamentos; então, ela não pode
ser abalada com facilidade; então, a dúvida e a confusão não podem facilmente
subjugá-la. Quer se trate de doença nervosa, quer de doença mental, quer se
trate de doença física, na raiz de todos esses aspectos da doença só há uma
causa - a desarmonia.
Um corpo que se tornou desarmonioso converte-se num receptáculo de
influências desarmoniosas, de átomos desarmoniosos; ele partilha dessas
influências sem saber disso; e o mesmo acontece com a mente. O corpo que já está
com a saúde precária é mais suscetível à doença do que o corpo que é
perfeitamente saudável; e, do mesmo modo, a mente na qual uma desordem já esteja
presente é mais suscetível a toda sugestão de desordem, e dessa maneira vai de
mal a pior. Cientistas de todas as épocas têm descoberto que cada elemento atrai
o mesmo elemento, e por isso é natural que a doença deva atrair a doença; desse
modo, em palavras simples, a desarmonia atrai a desarmonia, enquanto que a
harmonia atrai a harmonia. Vemos na vida cotidiana que uma pessoa que nada tem
de errado em si mesma e está apenas fraca fisicamente, ou cuja vida não é
regular, está sempre suscetível à doença. E também vemos, por outro lado, que
uma pessoa que pondera, com freqüencia, sobre pensamentos desarmônicos é
ofendida com muita facilidade; não demora muito tempo para que ela fique
ofendida - uma coisinha aqui e outra ali a fazem sentir-se irritada, pois a
irritação já está presente e requer apenas um pequeno toque para se transformar
numa irritação mais profunda.
Além disso, a harmonia entre o corpo e a mente depende da vida externa da
pessoa; o alimento que ela ingere, a maneira como vive, as pessoas com quem se
encontra, o trabalho que realiza, o clima sob o qual vive. Não há dúvida de que,
sob as mesmas condições, uma pessoa pode estar doente e outra pode estar bem. A
razão disso é que uma delas está em harmonia com o alimento que ingere, com a
situação meteorológica onde vive, com as pessoas com quem se encontra, com as
condições que a cercam. A outra pessoa se revolta contra o alimento que ingere,
contra as pessoas com quem se encontra, contra as condições que a cercam, contra
a situação meteorológica onde precisa viver. Isto se deve ao fato de que ela não
está em harmonia; e percebe e experimenta resultados semelhantes em todas as
coisas da sua vida. A desordem e a doença são o resultado disso.
Essa idéia pode ser muito bem demonstrada pelo método que os médicos da
atualidade têm adotado, de inocular uma pessoa com o mesmo elemento que a torna
doente. Não há melhor demonstração dessa idéia do que a prática da inoculação.
Isso coloca a pessoa em harmonia com a coisa que é oposta à sua natureza. Se a
pessoa entender esse princípio, ela poderá inocular a si mesma com tudo o que
não estiver de acordo com ela, e com aquilo ao qual está continuamente exposta e
do qual não há maneira de escapar. Em geral, os lenhadores não pegam insolação;
os marinheiros não pegam resfriado facilmente. A razão disso é que os primeiros
se fizeram à prova de sol, enquanto que os segundos se fizeram à prova d'água.
Em resumo, a primeira lição em saúde é o entendimento desse princípio, o de que
a doença nada mais é que desarmonia e que o segredo da saúde reside na
harmonia."
Inayat Khan, em "O Coração do Sufismo", ed. Cultrix
* a palavra "tone", do original em inglês, tem o sentido de som,
nota definida, e não o sentido de tom enquanto campo de acordes que se
relacionam segundo leis de atratividade, como o "tom de Dó Maior ou o tom de Lá
Menor", como é comumente utilizada em português.
