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A palavra ilumina, mas pode queimar
Abordagem sobre Cabala
O uso da palavra define o ser humano. Raramente, num instante de meditação, ficamos livres do pensamento. Uma das nossas características centrais é que falamos quase o tempo todo, não apenas com palavras físicas, mas também mentalmente. Quando não dizemos nada para os outros, estamos dizendo coisas para nós próprios. Quando não escutamos alguém, ouvimos dentro de nós a voz interior das esperanças e anseios que habitam nosso universo pessoal.

Para que possamos entender o Poder da Palavra temos que inicialmente fazer uma análise do que é exatamente a “Palavra”. As Palavras são aparentemente meros sons ou uma seqüência lógica de letras (sinais gráficos) convencionados pelo homem que servem para expressar uma comunicação entre 2 partes (emissor e receptor), mas segundo a Cabala é bem mais do que isso. A palavra "Palavra" vem do hebraico, “Davar”, que significa "aquilo que está por trás", compreendendo-se como alguma energia que está oculta e deve ser revelada. Portanto devemos analisar a Palavra sob 3 aspectos: o conceitual (significado), o fonético (significante) e o numerológico.

No nível conceitual entendemos a Palavra como o significado das coisas, derivado do campo do pensamento formado e da idéia definida nos limites da mente, oriundo através de algo que é identificado e expresso por símbolos diferenciados.

No nível fonético entendemos a Palavra como expressão da linguagem manifestada através do som, mas o que é o som? O som é o resultado audível (sensação física) de uma vibração. Nós vivemos em um mundo de vibrações. Essas vibrações retransmitem-se pelo ar, por meio de ondas, como as ondas do mar. Mesmo o menor movimento provoca vibrações e, todas se propagam. Quando alguém bate um lápis em uma mesa, está transferindo ondas em movimento para as moléculas do móvel. Esse movimento empurra as moléculas de ar vizinhas que, por sua vez, empurrarão outras moléculas. O som é uma forma de energia provocada por esse ir-e-vir de vibrações. O movimento vibratório do ar atinge o ouvido e faz com que o tímpano (uma espécie de tambor) também vibre. As ondas sonoras atingem o ouvido como vibrações que são convertidas em impulsos nervosos e transmitidas ao cérebro, que as interpreta em forma de pensamentos e idéias.

O Poder do som é reconhecido há muito tempo nas terapias espirituais e místicas de todo o planeta. Os exercícios espirituais de meditação, baseados no som, já existem há milhares de anos e muitos deles foram integrados em muitas religiões. Entoar cânticos, mantras, orações, respirar e executar movimentos de forma rítmica são utilizados como caminho para o autodesenvolvimento e o esclarecimento espiritual.

No nível numerológico, que a Cabala chama de “Guematria”, temos a relação das letras do alfabeto hebraico (Alef-Beit) com os números equivalentes numa escala energética vibracional do cosmos. As 22 letras hebraicas referem-se as 22 forças da criação do universo em forma magnificentes de energia primordial, e que podem efetivamente ser usadas como instrumentos de poder.

א

ב

ג

ד

ה

ו

ז

ח

ט

י

כ

ל

מ

נ

ס

ע

פ

צ

ק

ר

ש

ת

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

20

30

40

50

60

70

80

90

100

200

300

400

 

Exemplos: ANO (הנש - SHANAH) = 355 (Número de dias no ano lunar).

GRAVIDEZ (נוירה - HERAYON) = 271 (Número de dias de 9 meses lunares).

PAI (בא) + MÃE (מא) = FILHO (דלי) , pois AV (3) + EM (41) = YELED (44).

D’US = NATUREZA, pois ELOHIM (86) = HATEVA (86).

Conhecendo estes 3 aspectos das Palavras podemos perceber o real valor e influência que elas exercem em nossas vidas e a importância de como elas devem ser bem utilizadas por cada ser humano.

 

É uma tradição universal onde Falar é Agir e Criar. Podemos encontrar na própria Torah (Bíblia), muitas referências de como a palavra é um instrumento de poder. Logo no primeiro capítulo de Genêsis (Bereshit) temos: “D’us disse: 'Que se faça a Luz!' E a Luz se fez”. Conhecemos também 2 dos 10 pronunciamentos (e não mandamentos comumente chamados, pois a tradução de “Asseret HaDibrot” é Asseret [Dez] e Hadibrot [Falas, Dizeres ou Pronunciamentos]) recebidos por Moshé (Moisés) no Monte Sinai que nos conecta com a energia da palavra:

 

3º) "Não jurarás pelo nome do Senhor, teu D’us, em vão; pois o Senhor não terá por inocente, aquele que jurar o Seu nome em vão". (Êxodo [Shemot] 20: 7).

 

9º) "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo". (Êxodo [Shemot] 20: 16).

 

Encontramos também vastas referências bem claras nos textos do Novo Testamento a este respeito, por exemplo:

 

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com D’us, e o Verbo era D’us. Ele estava no princípio com D’us. Todas as coisas foram feitas por meio dele" (João 1:1-3).

 

E o verbo ainda hoje cria o universo humano. Todos os dias, pela manhã, reinventamos a vida. É sempre aqui e agora que criamos o nosso destino futuro, através das palavras que dizemos para nós próprios e para os outros. Cada pensamento e cada som é um mantra, porque detém um poder mágico de influenciar a vida de modo profundo. Eliphas Levi (Cabalista francês – Sec. XIX) escreveu: “As vibrações da voz modificam o movimento da luz astral e são veículos poderosos do magnetismo”. As vibrações do pensamento que não é falado têm o mesmo efeito. O poder da palavra é enorme, portanto. Ela salva e condena, ilumina e causa escuridão, faz adoecer, cura e dá esperança. O pensamento correto leva à palavra e à ação corretas, e disso surge a felicidade.

 

“Na cadeia que contém os vários graus da essência, tudo está ligado de um modo mágico. Assim se compreende que os cabalistas insistam no fato de que a ascensão aos mundos mais elevados, e até aos limites do Nada (AIN), não implique um movimento por parte dos homens, pois onde tu te encontras estão todos os mundos”. (Gershom Scholem – Cabalista Alemão do Sec. XX)

 

A palavra é a unidade básica do pensamento e da fala, e sempre chega ao seu destino. Ela produz um efeito eletromagnético, independentemente de nós sabermos ou desejarmos isso. Mas a parte principal do seu efeito se volta para nós próprios. As palavras que dizemos ficam gravadas em nosso inconsciente e se misturam ao nosso destino. Esta é uma lei inevitável, e por isso nossa vida é, de fato, resultado do nosso pensamento.

 


 

O poder da palavra e do pensamento é como o fogo. Ele ilumina, mas também pode queimar, e por isso deve ser usado com atenção e cuidado. Em geral, quem fala impensadamente também age sem pensar. Quando sabemos calar, fica mais fácil parar o pensamento e abrir espaço para a luz da intuição. Então passamos a perceber a verdade de modo cada vez mais direto, diminuindo a necessidade da intermediação do raciocínio.

 

Toda fala surge da ação e da vivência. Nenhum discurso pode ser mais forte que a prática da qual ele emerge. As palavras são extremamente úteis, quando sinceras. Mas só servem para desorientar quando estão divorciadas dos fatos. Nesse caso, elas desorientam muito mais aquele que diz do que aquele que ouve a falsidade, porque quem fala falsidades se acostuma com elas e perde o hábito de enxergar a verdade. Com isso, fica desorientado.

 

No judaísmo, a expressão “Lashon Hará” (Maledicência ou Má Língua) significa falar mal do próximo, na sua presença ou não, mesmo que se esteja falando a verdade; e segundo às legislações de moral e ética do código judaico (Halachá – palavra hebraica que literalmente quer dizer “Caminho a Seguir”) é considerada tão grave que equivale às transgressões de homicídio, adultério e idolatria.

 

Jamais devemos usar a palavra com o objetivo de ferir alguém. Temos que vigiar constantemente nossas próprias atitudes para que a intenção permaneça pura e ele nunca sejamos distraídos pelo desejo medíocre de uma pequena vingança, nem desorientados pela vontade de humilhar sutilmente outra pessoa ou de parecermos que somos melhor que alguém (EGO). O uso eficiente do poder da palavra requer atenção, equilíbrio e coragem.

 

Não basta, porém, controlar no dia-a-dia as palavras que falamos. É necessário selecionar também as palavras que escutamos. Devemos decidir com atenção o que queremos ouvir no rádio ou na televisão. É recomendável evitar filmes de violência e outras “obras de arte” em que a mentira e o egoísmo estão muito presentes. Tudo o que vemos tem impacto sobre o nosso subconsciente.

 

As pessoas com quem escolhemos nos relacionar estreitamente devem ser bem selecionadas. É aconselhável adotar como amigos os mais sábios. Outra recomendação para a defesa da nossa alma contra emoções e pensamentos negativos é conduzir as conversas de que participamos para temas elevados. Podemos ganhar grande paz e sabedoria mantendo presentes dentro de todo e qualquer diálogo os sentimentos de ética, respeito e equilíbrio. A razão disso é simples. Cada palavra falada ou escutada fica registrada e passa a habitar a nossa aura, isto é, a atmosfera eletromagnética sutil que rodeia e acompanha nosso corpo físico.

 

É decisiva, portanto, a importância das boas conversas, das leituras sobre temas elevados, dos filmes e vídeos inspiradores. Os pensamentos, palavras e atitudes positivas criam emoções construtivas e o resultado disso é boa saúde. A boa saúde, por sua vez, nos inclina a ter sentimentos e pensamentos construtivos, e assim se forma um círculo magnético de realimentação positiva. As técnicas chamadas de PNL (Programação Neurolingüística) que estão tão em evidência nesta época provam tudo isso que estamos abordando aqui; ensinando ao ser humano a ter um maior domínio sobre seus comportamentos (pensamentos, falas e ações) de forma consciente. E não é por acaso que os gregos antigos tinham como lema “Mente Sã em Corpo São.” As duas coisas andam juntas, e trazem consigo o despertar da inteligência espiritual.

 

“Na busca da sabedoria, o primeiro estágio é calar, o segundo ouvir, o terceiro memorizar, o quarto praticar, e o quinto ensinar.” (Rabi Salomon Ibn Gabirol – Séc. XI – Espanha)