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As escrituras

Bhagavan Krishna

Bhagavan Krishna e a unidade divina
Luiz Augusto de Queiroz
3.9.2007

Pôr em prática significa sair de dentro da nossa alma para fora, transformando o que está fora em dentro e unindo o que está dentro ao que está fora. Essa busca de unidade é o propósito de trabalho da Casa de Padre Pio: a busca de viver em Deus e a busca da percepção de que não há, nunca haverá e não houve em nenhum momento separação da verdade. A verdade é una, participante da nossa essência. Temos que entendê-la como algo em que não há separação. E não havendo separação, todas as manifestações dessa verdade são válidas. Principalmente a fragmentação que o nosso ego escolheu e se impõe é capaz de tristemente perceber diferenças na essência das manifestações da verdade. Quando a gente falava das manifestações da verdade, não são simplesmente as manifestações vindas através das percepções espirituais ou religiosas! São manifestações da verdade vindas de toda e qualquer origem, todo ou qualquer lugar, são todas um. Essa é a nossa idéia e é por isso que estamos aqui. Hoje nós estamos aqui num dia especial, o dia da véspera do Jannashtammi. Um dia sagrado porque Krishna, como a centelha divina, como o Senhor, como o nosso eu crístico, como a representação de um eu crístico, é louvado nesse dia, é comemorado da mesma forma como nós comemoramos o Natal. É o dia do aparecimento do Senhor Krishna no mundo. Como o calendário indiano é lunar, esse dia varia de acordo com a época. Ele vai de julho a setembro de acordo com a movimentação celeste. E nós vamos tê-lo amanhã dia 4 de setembro. E como temos aprendido aqui que o tempo não existe, vamos ter certeza que não estamos antecipando a festa, estamos reunidos no espírito de Krishna.

Como essa Casa faz isso procurando perceber a Divindade em tudo, nós não misturamos processos, e nós vamos fazer rituais respeitando parâmetros de rituais de Krishna. O nosso processo não é fazer alguma coisa vazia. Só terá valor literal o que estamos fazendo hoje aqui, desde que cada um de nós perceba isto no coração e na alma para o Todo, que é representado pelo Senhor Krishna, como é representado pelo Cristo em Jesus Nazareth, como é representado pelo Cristo em cada um de nós. A centelha crística, a centelha divina vive no Universo inteiro e todos os grandes avatares só buscaram nos mostrar isto.

Existem entre essas tradições, e todas elas têm um lado histórico e outro, que é o de lenda ou mito. Nós costumamos usar a palavra lenda ou mito para considerar irreal um determinado fato ou acontecimento. Ora! Desde que Jung realizou sua obra, nós sabemos que mitos e lendas, irrealidades, sempre possuem e sempre possuirão um grau de realidade não passível de ser percebido pelo nosso intelecto. Então, os fatos na vida do Bhagavan Krishna são extremamente interessantes porque possibilitam àqueles que têm olhos para ver enxergar a unidade por detrás e por baixo dessa superfície separada que nós teimamos em nos ater.

A explicação é que nós temos aqui montado um altar, buscando respeitar a forma de se aproximar desse avatar, representando a centelha crística, o retrato de Krishna, com uma guirlanda de flores. Isso significa que nós estamos ofertando a ele o nosso ego pequenino. Ele vai representar hoje nesse encontro nosso, a centelha crística que sustenta todo o universo e a cada um de nós. Pedimos para cada um trazer frutas, respeitando o costume oriental. É assim que se faz efetivamente na Índia e em todos os lugares onde essas normas são observadas. A fruta é um donativo e, como tudo aqui nesta Casa, trazê-la é um ato voluntário, ninguém é obrigado a dar donativo. Por que no oriente se faz a oferta? Quando você faz uma oferta à centelha crística você está abrindo mão de alguma coisa. Quando o Ian Mecler esteve aqui, ele falou e vocês viram que, segundo a Cabala, quando abrimos mão daqueles 10%, abrimos uma espécie de tampa de rolha ou vácuo para que todo o universo se manifeste. Ao se manifestar, o universo nos traz aquilo que muitas vezes nem sonhamos merecer.
Então, quando a gente faz o donativo, será com esse intuito. Podem trazer o envelope vazio não importa, esse recurso que vai ser ofertado aqui vai ser integralmente levado, como as frutas também, às famílias que nós atendemos na Ação Social. O trabalho está crescendo muito. Nós já temos ofertado cestas básicas. Então o que for feito aqui é ofertado ao Senhor Krishna e é ofertado imediatamente para aqueles que necessitam e que essa Casa atende.

Isso se faz em todo templo oriental, isso se faz na Self. Em todas as festas em homenagem a qualquer guru, Yogananda, Bábaji, Krishna, se faz uma oferta porque esse é o costume oriental! Então nós estamos fazendo isto aqui e aproveitando para reverter para a Ação Social. E como vamos fazer isso? Em um dado momento nós vamos sentir o ambiente, vamos ficar trabalhando juntos. É interessante que a gente perceba nessa ótica de união, de similaridade entre as coisas. Quando a gente terminar essa parte, nós vamos para a cerimônia propriamente dita.
Esses doces são doces de Krishna que foram feitos nessa madrugada num ritual de coração, de louvação a Krishna apenas em meditação feitos por mãos que estavam orando e pensando em Krishna que aqui viesse materialmente trazer. Então quem quiser, pega um doce. Não é obrigatório. Esse doce é um símbolo, mas mais do que um símbolo a gente tem certeza de que ali estão impregnadas vibrações, e vão ficar ainda mais impregnadas, porque nós vamos permitir isso com nossa oração.
Nós vamos usar duas palavras OM e SUAH. OM e SUAH significam que nós vamos queimar na fogueira do espírito todas as coisas que nós queremos queimar. Esse fogo e o fogo da sabedoria lá dentro de nós abrem espaço para a gente crescer. Esta então é a nossa idéia aqui.

Vamos ao trabalho. Eu queria começar contando a história do Bhagavan Krishna. Não há mais dúvidas quanto a existência histórica dessa figura, como não há em relação a Jesus, Moisés, Buda e Maomé. Krishna foi efetivamente um Ser histórico, um príncipe e nós vamos ler uma passagem de P. Yogananda, extraído de “A Eterna Busca de Um Homem” e vocês vão ver que Krishna era uma figura histórica. Como contraponto altamente saudável para Jesus de Nazareth, Krishna foi um Ser Divino, mas que esteve o tempo inteiro, durante boa parte da sua vida em comando de uma instituição material, um reinado. Krishna foi um rei em determinado momento de sua vida.

Quando nasceu lá pelo ano de 3600 antes da vinda de Jesus ao mundo, Krishna nasceu num momento em que havia uma grande confusão nos planos espirituais próximos da Terra. Na Terra também, a tradição hindu – e aí se misturam os fatos históricos, dando origem ao que chamamos de mito –, conta que os reis lunares são assim denominados porque a lua se assemelha ao ego porque ela é reflete uma luz que não é dela, além de passar por estágios variados: cheia, minguante, nova, crescente. Pois esses reis lunares estavam em poder e no momento em que Krishna veio ao mundo, Kamsa, um dos reis mais cruéis, governava. Kamsa era um rei impiedoso que tinha tomado o reino do seu próprio pai e casado com uma princesa que era apenas fogo na fogueira de suas incontáveis características egóicas: vaidade, poder, orgulho, impostos, guerras e tudo o mais. Este momento de confusão precede a vinda de Krishna ao mundo.

Kamsa tinha uma irmã chamada Devaki que, por sua vez, era casada com um ser de alta iluminação chamado Vasudeva. Devaki era irmã de Kamsa e, como a mulher de Kamsa era filha de um feiticeiro, dos piores feiticeiros, na verdade era o próprio ser astral temporariamente materializado na terra, usando todos os poderes e magias astrais negativa, para comandar e controlar as pessoas. Esse feiticeiro percebe e descobre que um dos filhos de Devaki viria para libertar o povo daquela situação, restaurar a harmonia e a paz após matar Kamsa. Ao saber disso, Kamsa trancafia Devaki e Vasudeva no momento do seu casamento para que os filhos que viessem a nascer fossem controlados por ele. A intenção era matar cada um dos filhos do casal. Alguém nota alguma semelhança com alguma coisa que veio depois? Então assim acontece com todos os sete primeiros filhos. Cada um que nascia era imediatamente morto por Kamsa, até que no sétimo filho, há uma troca de entidades. Rapidamente antes do nascimento de Krishna, Vasudeva oferece uma menina, Balarama. Essa menina que veio trocada era a encarnação momentânea da deusa Durga que é a figura sublime da Mãe Divina que se materializa e diz: “Chega! O sétimo foi o último, e o sétimo sou eu!” Ela se desmaterializa, some e deixa Kamsa absolutamente desesperado... Isso pode imediatamente fazer a gente pensar nas escalas setuagenárias, ou seja, quando um ciclo se completa de sétimo, o oitavo ciclo é o movimento de subida, superior.

O oitavo filho nada mais é do que uma das manifestações da Divindade Única. É bom assinalar que muitas pessoas entendem superficialmente as coisas e chamam os hindus de idólatras, por exemplo, porque eles cultuam várias divindades, são politeístas. Esse engano é absoluto! Quem conhece mais profundamente a cosmogonia hindu e a manifestação espiritual dos hindus desde os antigos vedas, sabem que não há nenhum politeísmo na visão espiritual. Pelo contrário, os hindus vêem Deus como Um e a manifestação da Divindade como algo sempre derivado desta unidade essencial que jamais se rompe. A Divindade plenária, como eles chamam, se abre por uma infinita gama de manifestações, inclusive do que eles chamam de deuses! Um deles é Mahadeva, denominado Vishnu, participante da chamada Trindade hindu, composta por Vishnu, Shiva e Brahma. Vishnu, o Mahadeva, é o deus que na verdade sonha com a criação de todos os universos e é dele que emanam o próprio Brahma e também, por conseguinte, Shiva. Vishnu, sendo a primeira representação passiva de ser compreendida pela mente, em determinados momentos se manifesta para equilibrar a criação como um todo. Ora! Vishnu já havia em algumas outras eras do planeta se manifestado e este oitavo filho de Devaki e Vasudeva é Vishnu que vem no dia do Jannashtammi. Antes de aparecer como pequenino bebê, dentro daquela prisão, em que estavam ali fechados Devaki e Vasudeva por muitos anos, ele se manifesta em toda sua grandeza! Vishnu como Mahadeva em uma apresentação utilizando quatro braços, levando um búzio num braço, uma chave no outro, a maçã, e a flor de lótus que são símbolos mais sagrados no hinduismo, e não por acaso eu pedi a vocês que trouxessem maçãs. Acho que 90% das frutas que vocês trouxeram foi maçã. Nada contra as outras, mas na representação do Mahavishnu no seu braço direito superior está uma maçã. Vishnu aparece assim imediatamente como um bebê no colo de Devaki. É Bhagavan Krishna e o casal desesperado pensa que ele vai morrer!

Só que vamos às “semelhanças” e “coincidências”. Um sono enorme se abate sobre todo o reino, inclusive na prisão, onde eles estavam. As portas se abrem e Vasudeva e sua esposa com o filho no colo escapam. Lá fora há uma tempestade e duas coisas acontecem. A deusa serpente de sete cabeças que é tida como uma visão ruim, que representa o ego quando se arrasta, quando Moisés, nachash é a serpente, é o ego, é a alimentação de tudo aquilo que deriva dela, da separação. Mas a deusa serpente, também sinal de cura, vai acompanhando Vasudeva, Devaki e Krishna até a beira do rio Yamuna, que é dos principais afluentes do rio Ganges. O rio Yamuna se abre para dar passagem aos três de modo que Krishna ficasse livre da perseguição de Kamsa. Vasudeva fala com Nanda Maharaj, e deixa Krishna na cama de Mãe Yashoda, sua cunhada, irmã de Devaki, que já estava com Balarama. Ela cria Krishna, que se torna um pequeno pastor. Krishna passa por uma crise de identidade até descobrir a sua natureza crística e a sua missão. Ele sai num movimento muito intenso de mostrar seus poderes. Enfim, é nesse momento em que as gopis chegam a ele. Todas as pessoas tinham por ele uma percepção de que ali estava alguém diferente e realmente estava! E até ele perceber que sua missão era ir retirar de Kamsa, seu tio, o reinado e entregá-lo, Krishna se recolhe e se transforma num anacoreta. Anacoreta é um eremita, um sadhu que se entrega a Deus por inteiro na solidão. Em volta dele começam a surgir um conjunto de discípulos, entre eles todos os Pandavas, que são os cinco irmãos que vão participar intensamente no Mahabhárata e o principal deles, Arjuna.

E no momento em que ele chega e percebe quão espiritual que era, um Ser crístico, que desperta essa centelha crística, ele percebe que é uma encarnação de Vishnu, ele vai a Kamsa e desfaz o seu reinado e ele passa a ser o rei de Mathura. E outros reinos em volta se desdobram e outras coisas acontecem. Recomendo que leiam o Mahabhárata. Hoje o que nos importa é ter esta consciência dentro de nós e o saborear dela, a consciência crística em Krishna. E uma forma de falar dessa consciência em Krishna é falar dele como criança. Krishna, quando criança, criado por Yashoda sua tia, era criança mais levada da vila. Ele fazia coisas absurdas em termos de bagunça. Adorava manteiga e era chamado na Índia como o ladrão de manteiga. As interpretações que existem são que devemos enxergar a divindade em tudo, inclusive nas coisas mais aparentemente absurdas e sem sentido. O que é a manteiga? É a nata, é a essência do leite, é aquilo que sai depois do trabalho. Então, Krishna era apaixonado pela essência do ser e não aquilo que ficava misturado dentro dos processos de quebra que aconteceram com todas as separações egóicas às quais nos entregamos ao longo das eras. Mas independente disso tudo, ele era ladrão de manteiga e mentia para a sua mãe. Até que um dia, numa tarde tranqüila, Krishna se embrenha numa casa onde ele sabia que tinha um estoque de manteiga e ao tentar roubar derruba os potes, um por um. Yashoda, que não sabia mais o que fazer com ele, se depara com a cena de Krishna levado pelo braço por toda a aldeia, num levante absoluto, dizendo que não há mais condição de lidar com uma criança daquele jeito! E ele sempre com um sorriso. E resolvem levá-lo a uma praça e amarrá-lo num poste e deixá-lo de castigo para tomar jeito. Começaram a notar que durante a noite coisas estranhas estavam acontecendo naquele poste. Havia ali em volta algumas luminosidades, alguns seres alados. Alguém toma coragem, se aproxima do poste e vê Krishna! Krishna abre a sua boca de criança simplesmente mostrando todo o Universo, com todas as suas galáxias. Krishna é liberto, pois todos entendem que aquele ladrão de manteiga era muito mais do que parecia, mas ao mesmo tempo alguém tão comum quanto estava parecendo. E este é o grande segredo dessa história, a mudança de percepção das pessoas com relação a Krishna. Nessa época, ele devia ter uns sete a oito anos. Daí em diante vai aparecendo o Krishna adolescente, o herói. E depois o Krishna santo, no sentido externo da palavra, manifestador completo de Vishnu, o rei. E é este rei que vai ser chamado pelos Pandavas que tinham perdido seu reino numa aposta de jogo para os kurus, que eram seus primos. É esse rei que vai ser chamado num primeiro momento para fazer a paz e para tentar uma consolidação de poderes! Tudo isso é simbólico!

Esse rei chamado para fazer a paz tenta mais de dez vezes criando todos os tipos de acordos possíveis e imagináveis. Como isso não acontece, ele determina que o dharma se cumpra e o dharma era a guerra, a batalha de Kurukshetra. E a guerra entre os Pandavas e os Kurus representada no Mahabhárata e que tem seu grande preâmbulo na grande obra que chegou até nós, o cântico chamado Bhagavad Gita. Com certeza todos vocês já ouviram falar dessa obra e sabem o tesouro de espiritualidade que ali está contido. O Bhagavad Gita acontece num preâmbulo desta batalha de Kurukshetra, quando os cinco irmãos Pandavas, cada um deles filho de um Deus, todos eles irmãos de manifestação da divindade, mas ainda necessitando da iluminação, como nós, esse número cinco inclusive é muito significativo, simboliza o homem. O número cinco está no meio da dezena e é o número que pode trazer a derrota ou a vitória, dependendo de seu movimento. Representa, pois, o ego. O cinco é a representação mais perfeita do ego. O homem é uma estrela de cinco pontas com braços, pernas abertas e cabeça. É dentro desse tesouro cinco dos cinco Pandavas que está a semente de iluminação, mas ainda não iluminada. Até aquele momento, os irmãos haviam perdido o seu reino num jogo de dados. O irmão mais velho, Yudhisthira, jogou o dado de forma compulsiva. Eram cinco contra cem! Perdeu o jogo e perdeu o reino. Foram para um exílio por treze anos. Mas a vontade do exílio não foi cumprida a palavra dos Kurus e eles teriam que receber uma parte do reino de volta e não receberam! Os acordos que Krishna tenta fazer, esses acordos não respeitados levaram à batalha.

No momento exato da batalha os lados se dividem e foi dado a cada um escolher o rei Krishna ou seus exércitos ou ele próprio. Isso também é um símbolo maravilhoso! Os Kurus eram cem em número e a representação da quantidade, da matéria, daquilo que a gente que só vive para o exterior vê. Os Kurus representam aqueles que consideram os meios materiais como únicos meios possíveis para se atingir coisas, situações ou o que for. É essa a simbologia por trás da postura dos Kurus, que eram filhos de um rei cego. Os Kurus que só acreditam no poder da matéria, no poder da fragmentação, no poder da quantidade, pois eles eram cem, escolhem os exércitos de Krishna, que eram poderosíssimos! Eram milhares de homens bem treinados e bem armados. E os Pandavas com Arjuna, que era o principal chefe guerreiro desta família, escolhem a Krishna sozinho! Vejam bem a beleza do ensinamento que está por detrás disso! Krishna uno, único, contra todo um exército de milhares de homens. Talvez fosse dado a gente fazer essa escolha e a gente escolheria seguramente o exército sem piscar, porque nós, provavelmente também, sem querer julgar, ainda estamos na fase dos Kurus, na fase que dá valor à quantidade em vez da qualidade! Que dá valor às manifestações externas, acreditando que o externo tenha vida própria, ou melhor, tenha alguma vida! E só há vida com o que está fora, se o de dentro está dentro vai se manifestar para que nem fora nem dentro sejam a realidade e sim algo maior do que os dois. O Uno. Pois quem escolheu a Krishna foi Arjuna e no momento em que a batalha se dá os exércitos se dividem e os dois lados estão pessoas que se conhecem de muitos anos. Há parentes, amigos, há primos e no caso de Arjuna dramaticamente pessoas muito ligadas a ele! Hidrona que tinha sido aquele que tinha passado a sua principal arte que era manobrar o arco como ninguém manobrava! Ora! A batalha está ali e Arjuna olha esses seres amados e nesse momento cai sobre Arjuna um torpor, uma fraqueza. Ele joga o seu arco no chão e desiste de batalhar. E aí se dá, a partir dessa postura de Arjuna, o Bhagavad Gita inteiro que é a iluminação do ego pelo eu, é Krishna falando a Arjuna, é o ser crístico falando ao ego e iluminando. A batalha acontece com a vitória muito dura e depois de muitos movimentos dos Pandavas. Eles recuperam o reino e Krishna compõe a sua missão.

Não há uma precisão histórica quanto ao fim de Krishna, mas é muito aceito que depois de cumprida a sua missão ele tenha se deixado abater pelos próprios inimigos do seu reinado, tomando três flechadas nos seus calcanhares. E aí se realiza o Mahasamadi que é a saída consciente de alguém que domina a arte do yoga no corpo físico e a entrada nos planos superiores da vida, por domínio completo desta ilusão espírito-matéria. Krishna faz isto e deixa o seu legado, que a gente num primeiro momento desconheceu aqui no Ocidente. Depois começamos a conhecê-lo a partir do século XIX através de mensageiros como Vivekananda, Ramakrishna e Paramahansa Yogananda, não só resgataram a luminosidade desta percepção espiritual, como a percepção clara da identidade entre os ensinamentos de Jesus Cristo, e dos grandes mestres como Buda, como Moisés.

Nós vamos ler hoje duas passagens do livro “A Eterna Busca do Homem”, uma coletânea de palestras de Paramahansa Yogananda.

Pág. 298
“Os sábios consideram sapiente o homem cujas atividades não envolvem motivações egoístas ou ansiedade pelos resultados, e cujas atividades são purificadas (cauterizadas de conseqüências kármicas) pelo fogo da sabedoria. Abandonando o apego aos frutos do trabalho, sempre satisfeito, independentemente (de recompensas materiais), o sábio não pratica nenhuma ação (escravizante, mesmo durante as atividades”. Logo, Krishna declara que para encontrar Deus não é preciso abandonar externamente todas as coisas, se tudo o que você faz não tem motivos egoístas e é feito apenas para agradá-o. Ou seja, agradar a Consciência Divina em nós ou a Deus. “Esquecer Deus por causa dos deveres mundanos é mostrar enorme ingratidão, pois não podemos cumprir nenhum de nossos deveres para com a família e todos os outros demais sem o poder que Ele nos empresta”.
Isto aqui resume como foi a vida de Krishna: um rei que gerou poder e ao mesmo tempo foi um renunciante. Um renunciante de que forma? A verdadeira renúncia é o Bhagavad Gita.

Continuando com Yogananda:

Pág. 299
“A vida de Krishna comprova sua filosofia de que não é necessário fugir às responsabilidades da vida material. O problema pode ser resolvido trazendo Deus aqui, onde Ele nos colocou” e de onde na verdade Ele nunca saiu, é a nossa consciência que tem que trazer Deus para dentro dela, acordar. “O ambiente não importa; na mente em que reina a comunhão com Deus, passará a existir o Céu”. Para evitar as armadilhas dos dois extremos, a renúncia ao mundo ou a sufocação na vida material, sem nenhum critério como quase todo mundo faz, “o homem precisa frear a mente por meio da meditação”.
Vamos aprender essa lição e guardar isso aqui e treinar de algum modo, não importa o método. Os métodos são todos válidos quando a gente atinge esse objetivo de mergulhar a consciência em Deus. Pode ser meditação cabalística, pode ser da Self, pode ser da yoga. A palavra yoga quer dizer união, a nossa essência só. Yoga não é uma técnica!
“Por meio da meditação para poder praticar as ações necessárias e legítimas da vida cotidiana enquanto conserva em seu interior a consciência de Deus. Todos os homens e mulheres deveriam lembrar-se de que suas vidas no mundo podem ficar livres dos intermináveis lares físicos e mentais se incorporarem a meditação profunda à sua rotina diária, uma vida equilibrada de meditação e atividade, sem apego aos frutos da ação é o exemplo que a vida de Krishna oferece”.

Yogananda continua a falar sobre Krishna falando da reencarnação que é claramente exposta por Krishna e falando da reencarnação aparecendo na Bíblia em diversas situações, tanto no Antigo como no Novo Testamento. E Yogananda termina com um trecho, descrevendo uma visão dele, e ele era um poeta, ele é um poeta! Era um apaixonado pela Divindade principalmente sob a sua forma materna. Ele entrava em êxtase. O que eu vou ler é uma visão espiritual que Yogananda teve de Krishna e Cristo juntos.

Antes a gente compartilha do Gita, na tradução do Huberto Rohden um ser de altíssima evolução espiritual, ele começa com a descrição da batalha e de repente Arjuna olhando aquela situação toda diz que não vai lutar! Esse diálogo foi mudo e provavelmente ninguém ouviu, só Ganesha e Vyasa que foram os que escreveram o Mahabhárata, e termina com o soprar do búzio anunciando que a batalha ia começar e que Arjuna tinha aceitado lutar.

Capítulo 3.

Disse Arjuna a Krishna:
1 – “Ó Senhor Bendito! Se é verdade que mais vale a sabedoria do que a ação, por que então me convidas a me envolver nessa luta horrível?”
Porque antes ele estava dizendo para Arjuna que agir é algo que não tinha muita significação e que ele tinha que agir, mas antes Krishna fala que o grande objetivo do homem era atingir essa sabedoria! Estaria armado um paradoxo enorme e Arjuna vai direto ao ponto e questiona Krishna: se vale tão mais a sabedoria do que a ação por que eu posso não agir se eu não quero agir? Eu quero deixar a minha arma no chão e não vou agir! É isso que eu quero fazer! E por que o Senhor está dizendo o contrário e me cobra, inversamente, a ação ao invés da renúncia a essa batalha?
Continua Arjuna:
2 – “As tuas palavras contraditórias encheram-me de confusão a mente. Pelo que, dize-me claramente: qual dos dois caminhos é melhor para mim?”
Responde Krishna a Arjuna:
“Já te disse, ó príncipe. Dois caminhos de libertação se abrem diante de ti: o caminho da sabedoria, para os que estão dispostos a meditar - e o caminho da ação, para os que preferem agir sem apego”.
4 – “Entretanto, esses dois caminhos são um só: ninguém se liberta da escravidão do seu agir pelo fato de não agir (essa é uma ilusão enorme que a gente tem) – e ninguém atinge a perfeição interior só por desistir da atividade externa”.
Luiz Augusto - Ou seja, ninguém atinge a perfeição interior só meditando sem fazer nenhum tipo de ação externa.
5 – “Ninguém pode existir um só momento sem agir; a própria natureza o compele a agir, mesmo sem querer; pensar também é agir no mundo mental”.
Luiz Augusto - Isso é uma verdade que hoje a gente não pode mais questionar! nós estamos aqui na Casa estudando um cientista que conseguiu fazer uma fusão entre os conceitos da mecânica quântica e a visão transcendental da vida, outros planos, outras realidades que não são a realidade material, todas elas irrealidade em relação às realidades superiores até que haja uma só e única realidade, pois então o Krishna está dizendo isso aqui: se você pensa que não age, você age porque você pensando, você está agindo e sentindo, nós também estamos agindo.
6 – “Quem é externamente inativo, mas cede a desejos internos, este ilude a si mesmo”.
Quando a gente reprime, antecipando aqui há quase quatro mil anos Freud. Porque quem reprime se ilude, não age.
7 – “Mas aquele que, pelo poder do espírito, alcançou perfeito domínio sobre seus sentidos”, pelo poder do espírito não é pela não ação, “e realiza todos os atos externos, ficando internamente desapegado deles – esse homem possui sabedoria”.
Ou seja, o desapego é algo que a gente trabalha lá dentro no ato externo. Yogananda explica isso no que acabei de ler: “eu tenho que agir porque senão é meu ego que age, é o ego, eu sou bom, eu sou o melhor, eu sou o campeão, esse eu sou deveria ser ego eu sou, ego eu sou, já que a gente usa ego com essa conotação, esse é que o grande problema. Agora, quando o eu verdadeiro age depois de fazer as maiores obras, esse eu está desapegado. O ego se funde ao eu. Outra coisa que o Krishna coloca muito claramente é que não se trata da destruição do ego! Seria uma contradição absoluta você pegar o ego e dizer que ele é errado, que é ruim! Não! A questão é incluí-lo dentro desse processo, é subordiná-lo. Krishna estava mostrando eu sou eu e você é Arjuna, o ego, que precisa nesse momento ser guiado pelo cocheiro, que sou eu, da sua vida e na sua batalha. Essa é a grande missão do G. Gita. E ele continua:
14 – “Tudo vive do alimento material – mas o alimento material vem do imaterial. O imaterial é produzido pela invisível essência dos atos”.
15 – “A fonte dos atos é Brahman, o Uno que enche o Universo e está presente em todos os atos”.
Quando alguém está ligado a esta fonte, ele não vive da matéria. Lá na Bíblia, na Tora: nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que provém da boca do Senhor. Nesta vivência não só de pão é vivência daquilo que precede o pão material!
Aqui Krishna está chegando ao fim, ele está iniciando Arjuna e aqui já vou para o final do B. Gita. Krishna aparece e Arjuna diz: me mostra a Tua face divina! E sai de cena novamente o corpo humano de Krishna e aparece o Ser celestial, engolindo e vivendo universos, enfim é uma descrição tão interessante porque ela precede muito a nossa percepção de que os antigos que achavam que a terra era plana e o único planeta habitado! Nada disso! É nitidamente muito claro aqui. Universos e criações entrando e saindo dentro do ser eterno e, naquele momento estava completamente manifestado em B. Krishna! E aí ele diz a Arjuna, e vocês vão ter reconhecimento disso nos Salmos, na Tora, no Evangelho, e em todos os mestres.

Capítulo 18

Krishna:
55 – “Porque dentro de si mesmo possui tudo. Quando o homem se integra em mim é um comigo; dele é a minha Grandeza, meu Poder, meu Ser, minha Vida, minha Sabedoria a minha Beatitude”.
56 – “E ainda que esse homem peregrine na terra, (nós) em corpo terrestre, persevera firme na minha graça, e por meu poder encontra a sua meta”.
57 – “O que quer que fizeres, faze-o no espírito da renúncia, tendo a mente em mim, o Senhor do mundo. Deixa a mim o cuidado pelo sucesso; pensa em mim e oferece-me o teu coração e a tua alma”.
58 – “Confia em mim e vive na fé depositada em meu ser. Pelo poder da minha graça alcançarás vitória sobre todos os obstáculos; mas se confiares somente em tua força pessoal, e não no Ser Divino, serás derrotado”.
Nesse momento a batalha está se aproximando e Krishna dá os últimos avisos:
59 – “Se, auto-iludido disseres ‘não lutarei’, iludes a ti mesmo; e a própria Natureza, (isso é profundo!) em virtude dos seus atributos, ela te obrigará a lutar”.
Aí sai de ação a lei que ele fala o tempo inteiro, a Graça, a Presença, a Sabedoria e entra o karma; ele vai ser obrigado a lutar de alguma forma sem renúncia aos frutos da ação porque há uma cena bem mais limitada, bem mais restritiva: a evolução. Porque naquele momento, Arjuna se propunha a entrar dentro desse palácio divino, entrar no campo da iluminação e vencer os seus obstáculos simbolizados naquela batalha.
60 – “O que procuras evitar, iludido pelas aparências, a isso mesmo serás compelido finalmente, contra a tua vontade, mercê das forças que vivem no íntimo do teu ser”.
Jesus também disse: quem não vai ao seu irmão com o coração cheio de amor e compaixão, vai ser obrigado a ir por outros métodos porque a Natureza vai obrigá-lo a chegar, o karma vai obrigá-lo a chegar, o fruto da ação a que ele se apegou, vai obrigá-lo a chegar de alguma forma a esse irmão, em alguma circunstância!
61 – “No interior de cada criatura habita o Mestre, e através de Maya, sua manifestação cósmica, impele todos os seres a gravitarem em torno dele, assim como as periferias da roda giram em torno do seu eixo central”.
62 – “Pois então, Arjuna refugia-te a ele, invoca o seu auxílio, e a ele te entrega com toda a alma – e por sua graça alcançarás a paz, a suprema beatitude da tua vida”.
63 – “Destarte, acabo de explanar-te o mais profundo dos mistérios. Medita intensamente no que ouviste e faze a tua escolha”.
A gente sabe que Arjuna escolheu lutar, a gente sabe que a batalha se desdobrou a partir dali. Uma das cenas que eu gosto de repetir é que num determinado momento da batalha Arjuna perde seu filho flechado a mando de um dos reis. E ele jura que faria o mesmo acontecer com aquele rei. Só que nesse momento quando Arjuna estava na batalha ele já estava iniciado, iluminado. Ele já não estava mais preso à lei do karma, ele fez esse tipo de reação e disse: eu fiz isso? Só que os exércitos do outro lado eram mais intensos, lembrem-se inclusive o de Krishna e ele não conseguiam chegar junto àquele que tinha dado a flechada no seu filho. Krishna resolve usar sua arma poderosa e termina assim:
64 – “E agora escuta a mais sagrada das minhas revelações: amo-te, (essa era a mais sagrada de todas) amo-te e por isto te revelo tudo pelo teu bem”.
65 – “Deixa-me governar o teu coração; entrega-te todo a mim com fé inabalável, e sê totalmente meu. É o que te prometo, porque me és caríssimo”.
66 – “Abre mão de todos os desejos, ritos e usanças tradicionais; mas faze-o! Tudo o que fizeres faze-o unido a mim, recorre a mim, o teu único refúgio, e eu te redimirei de todos os males; evita todo o temor”.
E aí termina o preâmbulo da seguinte forma:
72 – “Ouviste e compreendeste tudo isto, ó nobre príncipe? Libertaste de cuidados o teu coração? Dissipou-se a treva que te envolvia a alma?”
Fala Arjuna:
73 – “Tudo compreendi, Senhor dos céus! Desertou de mim a tristeza; a tua graça iluminou o meu coração e transfigurou a minha alma. Dissiparam-se as dúvidas; resplandece clara a verdade – e eu farei o que o teu verbo me mandou”.
Efetivamente quando Krishna toca o búzio e Arjuna entra na batalha, e Arjuna somos nós, o nosso ego. Krishna o eu que diz: “Confia em mim”. Nosso eu é o maior apaixonado por nós. Nossa natureza divina é a coisa mais apaixonante que existe desde que nós viemos a conhecer! Mas ela já é apaixonada por nós! Há uma passagem linda no Salmo 91 e no final do Salmo há uma interessante tomada do diálogo por Deus. No primeiro momento é o salmista que fala: “Aquele que vive sob as asas do Altíssimo, à sombra do Onipotente, ele descansa”. Mas no final, Deus que é esta mesma essência Divina diz: “Ele apaixonou-se por mim e eu o libertarei”. Então, do lado de cá já existe isso, o que a gente precisa fazer é o inverso. É encontrar essa unidade e união que existe em nós, representada por qualquer dos avatares. Eu queria contar isso para vocês, para essa cerimônia não se tornar, ainda que alegre, ainda que forte, porque o cântico por si só traz a vibração, e o que vier aqui entenda que é a esse Krishna que nós estamos nos direcionando!
Vamos sentir essa Presença sem esquecer de que recebendo essa Luz em nós, nós a fazemos viver. Viver e brilhar para compartilhar através do amor, para podermos amar também. Expandir a obra da criação, concebendo em nós o Krishna menino, como Jesus menino, como Moisés menino, o Ser que nasce, mas com o mesmo poder, infinito poder capaz de nos fazer vencer todos os obstáculos, capaz de fazer transformar o nosso ego no altar da Presença.
Vamos fazer o mantra OM e SUAHA.
No silêncio, absorvidos por essa atmosfera de amor e de alegria em que nós estivemos mergulhados, vivos nela, é a nossa essência que desperta. Que ela vá conosco aonde caminhemos e transformados transformemos, crucificados iluminemos.
Vamos homenagear Yogananda cantando “Eu sou a onda”.
O mar sagrado de OM, o mar sagrado do espírito, nós somos ondas, mas queremos nos fazer mar. Portanto cantamos por esse poeta do espírito, esse apaixonado da Mãe Divina: “Faz assim ó meu Senhor, Tu e eu sempre unidos, a onda no mar desfaz-se no mar, eu sou a onda, mas faz de mim o mar”.